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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Perinidade

Nasci entre os imortais
Com o passar das eras vi tudo que era belo nascer e crescer
Na aurora dos tempos
Na longínqua Primavera do mundo sob os ciprestes
Onde a luz dourada nos iluminava
Onde havia um sentimento que não existe mais

Nos dias da bem-aventurança
Onde os imortais gozavam de uma felicidade que parecia eterna
Onde a o mundo aindaa era jovem, sem mácula
Dentro de cada alma, havia algo que brilhava
Algo que fazia aqueles tempos passados
Serem tempos dourados

Nos bosques bucólicos
Nós festejamos com canções sobre a beleza da existência
Daquele mundo que ainda era virgem e inocente
As flores de sonhos dourados refletiam a plenitude
Do alvorecer longínquo que não pode mais voltar
Até que elas caíram e deram lugar a verdes folhas

Eras se passaram até o Verão
Os dias se tornaram mais rápidos
Os grandes artífices criaram maravilhas esplêndidas
Que já se perderam sob as areias do tempo
Os grandes povos construiram suas cidades
Prateadas com suas cúpulas de ouro

Mas eu vi também a chegada dos mortais
E com eles a guerra e a doença
Apesar disso, ensinamos para eles todas as nossas artes
Nos tornamos inspirações de suas lendas
E mesmo naquela época, os mortais gozavam de longa vida
E felizes eram os seus dias

Eu vi as guerras dos cálices e dos anéis
Vi os primeiros de meu povo imortal tombar
Sob o poder sombrio que começava a crescer
Mas nós e os mortais o vencemos, pois o mundo era jovem
E grandes heróis surgiram, e regozijaram-se com a vitória
Naqueles tempos passados

Eu era a princesa naquele mundo fantástico
Minha magia corria forte nas minhas veias
Por onde também corria o meu sangue imortal
Foi então que eu conheci o dissabor da maldição
Ao descer dos meus salões arcanos
Para me ter com os mortais

Os mortais me encheram de encanto
Com sua juventude e fragilidade
Mas logo eles se tornaram cansados e curvados pelo tempo
Em apensas um breve suspiro toda a vida deles
Se esvaiu para o reino da morte
Onde todos eles dormem seu sonho eterno

Uma enorme tristeza inundou meu coração
Enquanto os últimos dias do Verão passavam depressa
Novas batalhas foram vencidas, porém com muitas perdas
Muitos de meus antigos companheiros imortais tombaram em batalha
E alguns se corromperam nas trevas do inimigo
Tentados por sórdidas promessas de poder

Logo o Outono chegou, fazendo o verde das folhas se tornar dourado
Me fazendo relembrar os tempos da aurora do mundo
Mas o mundo havia mudado e eu também
Não era mais uma princesa, era uma rainha sábia
E eu encontrei nova beleza entre os mortais que eu inspirava
Entre as cores do amarelo outonal

Usei a minha magia para prezervar tudo que havia de belo
Que restara das primeiras eras do mundo
Criei um refúgio para os últimos de minha raça
E criei um sonho de nova vida aos mortais
Mas lá no fundo uma tristeza não saia do meu coração
Pois eu sabia que tudo estava mudando

Os dias de outono passavam rapidamente
As folhas farfalhavam e caiam com o vento
A encontrei perdida nos bosques labirínticos
Donzela mortal que eu acolhi e criei como uma filha
Ela aprendeu muito do que eu sabia
E ela encheu de alegria meu coração envelhecido

Porém, como toda mortal
Ela precisava ir para as mansões dos mortos
E as minhas lágrimas incontáveis se derramaram sobre a terra
Em forma de uma chuva sem fim que assolou os vales
Com ela veio mais guerra, peste e tristeza
Enquanto as ultimas folhas do Outono caiam

O próprio mundo dos mortais se enchia de sombras
Enquanto hostes cadavéricas destruíam tudo que era belo
Enquanto estava imersa em meus prantos
Não consegui preservar minha morada e todas as coisas antigas que eu guardava
Que se perderam para sempre e não podem mais ser recuperadas

Foi então que as ultimas folhas do outono caíram
E tudo se escureceu, enchendo o coração dos mortais de medo
Quase todos os imortais se foram e eu fiquei sozinha nos bosques escuros
Enquanto a noite caia e as sombras adensavam nos corações das florestas
Em antigos recantos eu vagava como uma antiga feiticeira da escuridão
Eu me tornara a senhora das lágrimas, um espectro de desespero

Foi quando o ocaso se deu, alongando as sombras profundas
Que os primeiros flocos de neve começaram a cair
Trazendo um frio cortante que tingiu os campos de branco
Todas as cores desapareceram do mundo, restando apenas as trevas
E a imensidão pálida que cobria o mundo gélido
Tudo tão frio, tão escuro

Então veio a Noite e suas criaturas mais mortas do que vivas
Tudo que me restava era o lamento e a melancolia
De tudo o que passou e não pode mais voltar
Minha alma esta enegrecida pelo tempo e pela dor
Meu espírito já esta morto em vida, enquanto meu corpo perambula pelas trevas
Entre os galhos retorcidos eu espreito como um espectro de desespero

No meio da floresta do mundo
Após incontáveis eras de lamentos dolorosos
Quando a esperança já se encontra totalmente morta
Meus olhos vertem um sangue negro, pois minhas pálpebras foram tomadas por chagas
Pelas feridas causadas pelo pranto interminável em que eu estou imersa a tempos incontáveis
Enquanto os desprezíveis mortais desta era, combalidos pela sombra, se corrompem

Dentro da escuridão, eu procuro os túmulos
Procurando em vão a entrada para as moradas dos mortos
Para encontrar todos aqueles que se foram
Para encontrar o tempo que não mais volta, me trazendo memórias melancólicas
No fim a maior maldição não era a mortandade dos mortais e sim a perenidade
Pois foi a Perenidade que me fez me tornar a Donzela das Lágrimas


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Alguém está ai?

Alguém está ai?
Eu não vejo ninguém em meio a escuridão e a dor
Me pergunto se existe alguma alma em meio aos vultos soturnos
Já que neste inverno frígido da minha mente não há nenhum calor
Minha existência absurda é cercada por delírios noturnos

Me pergunto se existem fantasmas nas conchas?
Ou se todos seriam autômatos cartesianos sem alma?
Será que eu estou sozinha?
Será que todos são fruto da minha loucura?

Abandonada, triste e amargurada
Eu vago pela escuridão, fazendo dela minha aliada
Já a escuridão é minha amiga, enquanto a dor é a minha amante
Pois eu não tenho mais esperanças de que alguém me entenda
E sinta a mesma dor que esta alma vagante

Destruída, eu me encontro
Não tenho mais como achar a mim mesma em todo este mar de sombras
Procurei todos estes anos por alguém que entendesse a minha dor
Que me aceitasse quebrada do jeito que sou, com todas as minha mágoas
Mas ninguém quer amar uma figura triste que derrama lágrimas em torpor

Corto os meus punhos
Esperando que alguém me entenda, mas todos vão embora
Queria ser livre de todo este sofrimento que me sufoca
Mas não posso fazer isso se eu continuar aprisionada por mais uma hora
Habitando esta  casca que me aprisiona e me devora

Serei para sempre abandonada
E continuarei sozinha procurando que alguém me aceite como eu sou
Mas eu sei que isso não vai acontecer enquanto os sois se porem
Mas eu continuarei de pé enquanto a escuridão que me alimentou
Gerar as chamas deste desejo de redenção, que continuará até o meu réquiem

Se eu não entendo nem mais quem eu sou
Em meio a imensidão deste deserto negro e calcinado
Onde as lágrimas já secaram em volta de toda o vazio onde eu estou
E já que realmente não há mais ninguém aí
Quero agora me deitar e adormecer para sempre
Pois nada mais faz a diferença
Quando a minha única chama se apagar
E o oceano de escuridão que me cerca se tornar uma imensidão cinza
Calcinante, amarga e sem sentido para a minha alma. Então...
...por favor...
...existe alguém aí, que entende a minha dor?




sábado, 6 de janeiro de 2018

O vagante e a prostituta

As ruas escuras se encontram frias e humidas e uma fina chuva cai sobre o asfalto elameado e envelhecido. Um homem vaga sozinho pelas ruas, escurecido pelas sombras e iluminado apenas pelo brilho colorido dos neons e telões de publicidade. A decadência da cidade, obscura, distópica e opressiva sufoca os transeuntes, que vagam sem rumo pelas suas ruas. Pessoas sozinhas e sem sentido que vagam pela noite, após viverem durante o dia uma vida não vivida. O homem entra em um bar, compra um maço de cigarros e toma uma dose de wisky. Depois ele sai e vai em direção ao distrito noturno da cidade.
Em frente aos predios decadentes,  nas esquinas, ao lado de postes e na entrada dos bordéis, varias prostitutas se oferecem aos homens que vagam pela noite procurando prazer. Pobres, marginalizadas e exploradas elas esperam os seus clientes. Uma delas, vestida em uma pele de lobo que cobria suas curtas vestes negras, de cabelos também negros e com maquiagem obscura olha para o homem enquanto bate com a ponta dos dedos na extremidade de sua piteira, jogando as cinzas no chão. Em seu pescoço está dependurado um crucifixo prateado, unica herança de sua pobre mãe, morta pela fome a muitos anos.
O homem era seu cliente mais assíduo, frequentava o seu leito toda a semana, e com a renda proveniente apenas dele ela conseguia pagar metade do aluguel. Ele atravessou a rua e foi até ela. Depois de se cumprimentarem com um abraço, ambos caminharam pela rua de braços dados e se dirigiram até um velho predio, entraram e subiram as escadas.
Para ela, ele era o cliente com a fantasia mais exótica e absurda, mas em sua opinião, a mais interessante. Ambos chegaram ao andar superior, abriram a porta do velho apartamento. Ela retirou o casaco de peles, ficando apenas com sua lingerrie negra. Ela convidou ele para se sentar e serviu algo para beber. Ele retirou o dinheiro da carteira e o deixou em cima da mesa. Ela se sentou e eles conversaram. Depois de um tempo, ela o se levantou, o pegou pela mão,  o beijou e o levou para o quarto, retirando o casaco dele. Era chegada a hora de realizar a fantasia mais secreta de seu cliente,  aquele homem, a princípio duro e rude como todos os outros.
Então ela se sentou na beirada da cama e o puxou para perto dela. Ele então deitou em seu colo, junto a seu peito ornado pelo crucifixo. Ela então começou a contar uma história sobre terras de outro mundo, onde ela era a princesa e ele seu cavaleiro, onde não existiam tiranos ou miséria, onde eles poderiam escapar. Assim que ele ficou sonolento, ela cantou uma musica e o afagou, até que ele dormisse em seu colo. Ela então apagou a luz do abajour e se deitou sobre ele, adormecendo logo em seguida. Logo depois eles sonharam que caminhavam em terras distantes e fantásticas, onde todos os seus problemas desapareciam.

Em memória de J.R, meu cliente querido, que de cima de uma ponte se jogou.



sábado, 15 de outubro de 2016

Pelas Ruas Obscuras Meus Olhos Vazios Vagam

Quando a dor lacera a minha carne, sinto a minha alma corroída pelo mais insuportável sofrimento. Uma estaca negra como a noite perfura o meu coração, que se enegrece em profunda necrose, enquanto em meu ventre, a mais instigante luxúria me compele não ao pecado, mas ao meu próprio sofrimento, que consome meu espírito e me devora todas as manhãs, quando acordo de meu doce sono, único lugar onde eu posso estar morta e descansando em paz. A dor me faz querer chorar, mas nenhuma lágrima escorre destes meus olhos, já que muitas lágrimas de sangue eu já chorei por aqueles que amei e que me deixaram desfalecida neste túmulo negro que se tornou minha vida. Minha alma violada, como uma roseira deflorada, vaga pela cidade negra, como um fantasma na névoa, tentando chorar uma chuva que não cai. Ando pelas ruas obscuras, enquanto a dor consome o resto de minha alma, dando lugar a um profundo niilismo, que torna os meus olhos ocos e vazios, enquanto eu enxergo toda a desgraça decadente a minha volta como se fosse uma doce ironia. Então eu comprimento as trevas, que são desde sempre as minhas melhores amigas, que sempre estiveram comigo na alegria e na doença. E antes que eu mutile os meus pulsos fazendo o meu sangue negro escorrer pelos brancos lençóis, eu sorrio macabramente, em meio a tamanha desgraça. Depois de tudo isso eu me deitarei, só eu e as trevas, neste leito terminal que me levará ao eterno sono e a minha libertação deste sofrimento.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Quando a Noite Cai


Quando a Noite Cai
A lua cheia nasce entre os pinheiros
Iluminando o mundo com a escuridão
E de suas profundas Trevas
Uma Deusa se ergue
Contemplando o crepúsculo
Até o momento
Que a aurora irá nos levar
 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Escrava de minha livre vontade

Entre o passado morto,
E o pensamento absorto,
Se encontra a chave do sofrimento,
Que se propaga nas áridas areias do tempo.
Maldito sejas, oh pensamento mórbido!
Que me faz uma escrava da minha própria vontade,
Em suas nuances sensuais, de auto-piedade,
Uma duvida cruel que só legitima a minha obscuridade.
Oh pensamento eterno, que me atormenta,
Uma escravidão perene que me orienta,
A grande ilusão da liberdade da minha vontade,
Vontade livre que não passa de uma vil falsidade.
Para viver é preciso morrer.
Morrer em vida e em lágrimas perecer,
Aprender com a inevitável morte,
Que o significado de tal insignificante existência é a arte.
Desejos atormentam a minha carne,
Assim como os delírios atormentam a minha mente,
Enquanto eu me afogo num lago profundo de desespero,
Onde as luzes dos reflexos das estrelas brilham em um lampejo.
O fogo do meu coração consome a minha alma,
E enquanto eu me entrego a tal paixão,
E enquanto o meu espírito se transforma em cinzas,
A minha vida se esvai, sem ser vivida
A dor, floresce como uma rosa negra em meu peito,
Como uma dália obscura que nasce na lua cheia,
E que entre as bétulas negras tem o seu leito,
Me fazendo gemer de prazer e desespero.
Oh, minha deusa da noite, me responda:
Como parar a dor de ser prostituida pela minha própria vontade,
Sendo que ela mais absoluta luxuria, em um véu de castidade,
Sendo que tal vontade escraviza minha liberdade?
Oh, minha nossa senhora das trevas, me diga:
Como viver neste eterno requiem,
Sem em meus sonhos me apegar a ninguém,
Sendo que para isso terei que morrer e não mais ser alguém?
Ou será que é no negro silencio,
Entre todas essas palavras que se encontra,
A resposta tão procurada em meu seio,
Que na morte de mim mesma, teria o seu feito?
Tal silêncio que tem em sua essência,
Como ao contrario de qualquer doença,
Um doce e eterno descanso,
Onde eu repouso ao fim deste pranto.















sábado, 1 de outubro de 2016

Reflexões sobre a Dor


A dor parece ser uma das realidades permanentes da vida, e durante toda ela, buscamos evita-la, do mesmo jeito que buscamos as realizações de nossos desejos. Mas estes desejos, quando não se realizam ou quando se realizam, trazem sofrimento para nós mesmos e para as pessoas ao nosso redor. O nosso eu esta cheio de desejo, e quanto mais ele deseja mais infeliz ele se torna, por não poder se autorrealizar. Quanto maior o nosso eu, mais agredimos as pessoas a nossa volta, causando cada vez mais sofrimento em nós mesmos e no mundo. Quanto mais egocêntricos nós nos tornamos, mais isolados nós ficamos, passando a ver a realidade com olhos cheios de desejo. Desejo de possuir a tudo. Devido a isso passamos a ver os outros de uma forma distorcida, onde eles sempre parecem possuir segundas intenções. Projetamos no outro, o inferno que nós mesmo vivemos. Desta forma não entendemos uns aos outros, apenas nos tornamos cada vez mais brutais, violentos, agressivos, aquisitivos, competitivos e construimos nesses moldes uma sociedade essencialmente doente. Mas nós nunca procuramos entender os outros. Parece que sempre quando nos direcionamos aos outros cheios de desejo, queremos usar, explorar, controlar, coagir e nunca entender, o que continua propagando o sofrimento. Mas, ao contrário do que muitos afirmam, a natureza humana (se é que algo assim existe), não se consiste apenas disso. Muitos de nós conseguimos sim nos colocar no lugar do outro através da empatia, assim entendendo as suas emoções. Através disso, podemos não só sentir o que o outro esta sentindo, como podemos compreender todo este sofrimento que sufoca as nossas vidas. Sentindo a mesma dor que os outros, nós podemos realmente entendermos uns aos outros.





Mas nós não entendemos a dor dos outros, apenas os julgamos através de nossos próprios olhos imperfeitos, através de nosso egocentrismo. Isto nos afasta mais ainda dos outros, criando em nós o medo de sermos julgados. Por isso não demonstramos as nossas fraquezas, pois através delas os outros podem nos julgar e podem nos explorar. Então nós nos isolamos cada vez mais, sentindo cada vez mais dor, e não compartilhando esta dor com ninguém. Dor que se compartilhada e entendida, levará ao entendimento, a justiça, a ética e a paz. Não estou falando de idealismos. A própria justiça e a própria paz são desejos humanos e o próprio bem é a ação de sentirmos a dor do outro. A pratica do entendimento da dor pode possibilitar a realização destes próprios ideais, mesmo que em pequena escala. Ou melhor, é nessa pequena escala que podemos começar a mudar alguma coisa. É nessa escala que podemos realizar algo verdadeiramente ético.

Segundo os budistas, o sofrimento é uma das constantes universais da vida. Eles acreditam que podem se libertar da dor atingindo o estado místico conhecido como Nirvana. Mas o Nirvana é a negação de qualquer desejo, de qualquer anseio de realização em vida. Aliás, o Nirvana termina com o ciclo de transmigração de Samsara, ou seja, quem o atinge não reencarna mais. Ou melhor, quem o atinge, morre. O Nirvana é uma morte iluminada, na verdade é a aceitação da morte de todas as coisas, não racionalmente e sim emocionalmente. Um estado realmente transcendental. Para alguém que chegou ao Nirvana, a própria crença na transmigração perde o sentido. Porem o que o budismo propõe é uma negação da vida comum e mundana, com os seus desejos e suas consequentes tristezas. Acredito que desejar pouco é realmente uma grande virtude, mas não desejar nada, é como morrer. O Nirvana nos nega o sofrimento, mas é sentindo a dor, conhecendo a dor e convivendo com a dor, que podemos conhecer o significado da própria vida. Não há sentido em atingir um estado como o Nirvana, se os outros não o atingirem. Eu acho que em meio tanto sofrimento, fazer algo para aliviar o sofrimento de outras pessoas vale mais apena do que simplesmente fugir de todo o sofrimento da vida em direção a algo que transcenda esta vida. Aliviar os sofrimentos uns dos outros e tentar chegar neste estado de iluminação juntos me parece mais importante, assim como pensavam os Bodhisattvas como Kuan Yin. A dor não morre, ela precisa existir para que haja o entendimento desta dor, sendo que no entendimento desta dor no outro, leva a humanidade a transcender seus simples egos, e a criar uma verdadeira identidade coletiva, ao contrário de todos os projetos de utopia que apenas pensam em sacrificar almas para a sua realização. O verdadeiro transcendentalismo não transcende a nossa existência, o verdadeiro transcendentalismo é entender a dor do outro como se entende a de si mesmo. Isto se chama amor.